Foram quatro linhas de Yoani que me arrancaram da letargia e fizeram vir aqui dividir com meus três leitores o sucesso de Dona Landinha.
Há um ano acompanho o crescimento do bar de Dona Landinha (e do Chico e do Tião). Eles fazem a melhor rabada ao molho da região, a melhor galinha caipira ou costela e, se o cliente for adepto de uma cozinha, digamos, mais contemporânea oferecem o melhor arroz-com-feijão-salada e “mistura”. Ou seja, o conhecido “comercial”, “brasileirinho” ou “a la minuta”, acompanhado de bife acebolado ou rolê, picadinho de carne, filé de frango ou peixe. O prato do dia pode ser ainda virado à paulista, panqueca ou macarrão também com frango (há quem goste). Não importa o que se peça, será sempre uma porção generosa de uma refeição honesta a um preço justo.
E por oferecer o melhor da região a preços razoáveis, por servir o que a freguesia quer ao preço que ela pode pagar, o bar da Dona Landinha não pára de crescer. Mas não cresce apenas porque a fome é muita e o dinheiro sobra. Afinal, ela tem muita concorrência em volta e essa dinheirama toda que sobra no bolso de gente trabalhadora poderia muito bem ir parar no bolso dos donos de alguns dos outros bares ou mesmo no caixa de algum dos três self-services por kilo que ficam por ali tentando atrair a freguesia de Dona Landinha.
O bar não pára de crescer porque o olho de Dona Landinha está sempre ali, “engordando o boi”. No começo ela nem tinha essa variedade toda no cardápio. Oferecia apenas o essencial: refeição boa e barata. Cobrava, em média, R$ 4,50. O movimento crescia e todos ficavam felizes.
Logo começou a faltar espaço para atender tanta gente. Ela então passou a cobrar (sempre em média) R$ 5,50. E a clientela começou a pedir pratos que ela não oferecia, como a costela e a rabada. Ela atendeu os clamores, cobrando um pouquinho mais pelos “pratos especiais”: R$ 6,50. Não houve queixas. Houve maior procura e um dos concorrentes mais próximos fechou. Outro deixou de oferecer refeições, já que não dava para concorrer com o arroz soltinho e o feijão de verdade da Dona Landinha.
Foi aí que Dona Landinha deu o tiro de misericórdia: introduziu a galinha caipira ao molho todas as terças-feiras, distribuiu os pratos especiais ao longo da semana e passou o preço a R$ 8,00. Não houve queixas, mais uma vez, já que ela continua a servir refeição boa e barata a R$ 5,00, o comercial comum, não-especial. Quem quer e pode pagar, paga um pouco mais pelo serviço que ela gosta e sabe fazer.
A cada dia falta mais espaço para atender tanta gente e Dona Landinha já não tem para onde crescer, quer dizer, o espaço físico, embora generoso, é limitado.
Mas ela já adiantou - por meio de seu fiel Tião - que agora está pensando em comprar o imóvel alugado e começar a crescer prá cima, fazer um pavimento superior, onde poderá diversificar ainda mais o cardápio e até mesmo, se for o caso, deixar uma opção de self-service, contratar mais gente, botar mesas de madeira, trocar os talheres, as crianças ainda são pequenas, por enquanto estudam, mas mais à frente poderão querer um negócio próprio, logo vem um neto, quem sabe outro, outro bar, perto daqui…
Mas o que tem a ver essa história a um só tempo tão comum e tão rara (para a Dona Landinha, o Tião e o Chico talvez seja a única história que conta) com as quatro linhas de Yoani?
Yoani não é Robin Hood. Ela cria a poesia que distribui.
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